Diploma Mulher Cidadã Berta Lutz

Publicado em 10/03/2010

Discurso proferido por ocasião da outorga do Diploma Mulher Cidadã pelo Senado Federal, no plenário do Senado Federal, em Brasília, no dia 13 de março de 2002.
  
Senhor Presidente desta Casa,

Senhoras Senadoras, senhores Senadores,

autoridades cujas presenças tanto dignificam este momento,

representantes do movimento de mulheres,

meus amigos aqui presentes em tão expressivo número,

senhoras e senhores,

a todos, gostaria de pedir permissão para ? como é hábito das mulheres ? quebrar o protocolo e saúda-los na pessoa da Senadora Emilia Fernandes:

não pelo fato de ser ela uma mulher,

não por ser minha conterrânea,

nem por ter sido a primeira gaúcha a adentrar esta Casa.

Não. Gostaria de cumprimentar a Senadora Emilia por ter tido a iniciativa de diplomar ?mulheres-cidadãs? chamando-as de Berta Lutz, esta feminista que dedicou sua vida na luta pelos direitos da mulher e que teve, tanto quanto a proponente, uma trajetória de inquietações, lutas e rebeldia.

Só poderia partir de uma mulher, que tem orgulho de ser mulher, a iniciativa desta premiação que busca despertar a consciência da cidadania feminina, mostrando o quanto é indispensável a presença de mulheres, não só neste, não só nos três Poderes, mas em todas as instâncias do poder.

Muitas pessoas questionam a razão de se destacar no calendário um dia da mulher. Afinal... não há um dia do homem, e somos todos iguais!

A igualdade de todos ? independente de qualquer discriminação, inclusive de sexo e orientação sexual ? está consagrada de modo enfático e repetitivo na Constituição Federal, elaborada nesta Casa, por uma Assembléia Constituinte da qual muitos dos senadores aqui presentes participaram.

A nossa Carta Maior, encharcada de direitos e garantias, serve de arma na busca do respeito à dignidade da pessoa humana e de escudo quando seus princípios são violados.

No entanto, ainda que seja um anseio de todos, a igualdade formal, infelizmente, está longe da igualdade material, e a igualdade real está distante da igualdade ideal.

Por isso, é preciso mostrar a todos, não só às mulheres, mas a toda a sociedade, que a tão sonhada igualdade de oportunidades e o tão almejado respeito à diferença ainda constituem um sonho.

Pois:

enquanto as mulheres forem vítimas do mais hediondo crime que assola a humanidade ? mais do que as guerras, mais do que as epidemias ?, que é a violência sofrida em decorrência de um vínculo afetivo;

enquanto se mantiver insensível o governo à necessidade de pôr em prática políticas públicas para refrear o tráfico de mulheres, a prostituição de meninas, o turismo sexual;

enquanto o legislador não tiver consciência de que mecanismos legais de proteção à mulher não maculam a isonomia, ao contrário, asseguram a igualdade, pois nada é mais cruel do que tratar igualmente os desiguais;

enquanto formos covardemente maltratadas, estupradas, mortas, e a Justiça se calar;

mas, principalmente, enquanto as mulheres não tiverem orgulho de se intitular ?feministas? e não verem a necessidade de continuar a luta (pois, se, no primeiro momento, o feminismo foi um desesperado gesto de rejeição ao opressor, em decorrência do medo e da submissão, hoje ser feminista não é um atributo feminino, e assim devem se intitular tanto mulheres como homens que têm a consciência da necessidade de se fazer um recorte de gênero na abordagem de todas as questões sociais);

Por isso, mais do que fixar uma data para ?festejar? a mulher, faz-se necessário destacar um dia de conscientização, para conclamar à luta pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade, expressões que não são apenas os ícones da Revolução Francesa, mas são as marcas da evolução dos direitos humanos.

Assim, por tudo isso, ainda é preciso identificar quem possui a coragem de empunhar a bandeira da cidadania e assumir essa função como uma verdadeira missão.

Esse é o significado deste momento.

Cientes disso é que, com muita alegria, mas com muita responsabilidade, eu, juntamente com

Herilda Balduino de Sousa,

Heleieth Saffioti,

Maria Isabel Lopes e

Luiza Erundina,

recebemos esta honraria de sermos chamadas ?mulheres cidadãs?, título que nos leva a reafirmar o compromisso, que cada uma de nós assumiu, nos diversos segmentos em que atua, de lutar pela igualdade.

Imperioso, no entanto, que as mulheres marquem sua presença, que percam a invisibilidade, que se libertem das ?burkas? que passam a vestir quando ingressam em algum ?gueto? masculino ? cômoda forma de serem aceitas.

Necessário que as mulheres não tenham medo nem vergonha de trazer para o espaço público suas características de feminilidade, sensibilidade, afetividade, e que saibam que esses são os atributos que precisam marcar a nova feição, não só da sociedade, mas da própria humanidade.

Já é chegada a hora de vivermos em um mundo justo, mais solidário, mais livre. 

Assim, quero convidar a todas as mulheres que, como nós, hoje estão se sentindo orgulhosas por estarem buscando resgatar a cidadania feminina, a cantar comigo e com a Emilia o refrão do hino riograndense, que deveria ser a palavra de ordem, não só das mulheres, mas de todos os brasileiros: ?sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra?.

Muito obrigada.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria