Posse da Acadêmica Eloá Muniz na Academia Literária Feminina

Publicado em 10/03/2010

Discurso proferido, na qualidade de Paraninfa da Acadêmica Eloá Muniz, que, no dia 20/11/2005,  em Porto Alegre ? RS, assumiu a Cadeira n° 34 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.

Recentemente, ao fazer uma palestra sobre a inserção feminina,  comentei que a mulher sequer era cidadã, pois só teve acesso ao voto em 1932. Depois, passei a discorrer sobre seus direitos de personalidade, visto que a mulher só adquiriu a plena capacidade em 1962, com o chamado Estatuto da Mulher Casada. Antes disso, ao casar, a mulher perdia sua plena capacidade, tornava-se relativamente incapaz, igual aos índios e aos pródigos. Não podia trabalhar sem a autorização do marido nem administrar seus bens.

Acabei afirmando que essa igualdade de fachada foi alcançada em 1988, com a Constituição Federal. Após debulhar toda a nossa difícil trajetória, uma senhora levantou-se e afirmou que a mulher sequer tinha acesso à educação. Não podia aprender a ler, como havia sido o seu caso, para ?não escrever carta para os namorados?.

Só aí é que percebi quão perversa foi a submissão a que foram subjugadas as mulheres. Não bastou impor-lhes a naturalização da maternidade como um instinto, como uma missão sacralizada para a qual são adestradas desde o nascimento. E tudo isso só para o homem ter certeza de sua descendência, ou seja, de que os filhos de sua mulher são realmente seus filhos.

Assim, foi criado o mito da virgindade - símbolo de pureza e castidade - como o maior atributo feminino a ser defendido e preservado mais do que a própria vida, tanto que nem Maria, para dar à luz o Salvador, deixou de ser imaculada. E, para confinar a mulher dentro de casa e convencê-la de que isso era o melhor para ela, disseram-lhe que ela era a rainha do lar.

Assim, o casamento era o único destino das mulheres, que com ele sonhavam desde o nascimento e para ele se preparavam desde sempre. Suspiravam pelo príncipe encantado. Para isso, mantinham-se puras e recatadas. Eram educadas para  obedecerem ao senhor seu marido. Passavam da condição de filha para a de mães.

Aliás, a simbologia do casamento bem retrata isso: a noiva, vestida de branco - cor que simboliza a pureza - e coberta por um véu - símbolo da submissão -, é entregue pelo pai ao marido.

Depois de casadas, a sua única tarefa era cuidar da casa, servir ao marido e criar os filhos. Ora, para isso não precisava estudar, bastava aprender a tocar piano, bordar e ser boa dona-de-casa.

A condição de absoluta submissão a que sempre foram submetidas as mulheres fez com que todos os temas femininos  ficassem submersos. Como as mulheres não tinham direito à educação, não havia como seu universo ser revelado.

A forma de continuar mantendo a mulher em condição de inferioridade e dependência sempre foi a não-valorização do trabalho intelectual feminino.

A mulher não tinha voz.

Suas palavras não eram ouvidas.

O que ela escrevia não era publicado.

Basta ver o pequeno número de trabalhos femininos aceito pelas editoras. Quantas vezes as mulheres tiveram que fazer uso de pseudônimos masculinos para publicarem seus trabalhos?

Por isso, não se pode negar o decisivo papel do movimento feminista, que, ao buscar a igualdade, acabou permitindo o acesso das mulheres à cultura. Foi a participação das mulheres no mundo das letras que lhes deu a oportunidade de falar sobre si. Desvendaram a alma feminina. Só assim é que se passou a saber o que acontecia dentro do lar, a violência doméstica começou a adquirir visibilidade - a violência sexual, o incesto, o estupro, tudo isso começou a ser denunciado.

Daí o enorme significado social da literatura produzida pelas mulheres a evidenciar a importância da Academia Literária Feminina não só para o panorama literário, mas também para o resgate da cidadania e da identidade das mulheres.

Essa importância permanece, pois as dificuldades subsistem até os dias de hoje, por isso a nossa Academia persiste com a missão de dar visibilidade às letras e à cultura.

Nossa tão dedicada presidente, Hilda Flores, não tem medido esforços para reformar a nossa sede. Reformulou os estatutos, de modo a criar novas categorias de associadas para emprestar ainda mais dinamismo à nossa entidade. Também foi ela quem agilizou o ingresso de novas acadêmicas, as quais vêm trazendo uma enorme contribuição à Academia, que busca mostrar à sociedade a imagem atual da mulher nas mais diversas áreas do saber.

Não só na literatura, mas em outros ramos do conhecimento, vem a mulher marcando sua presença, e esta nova bagagem é que tem emprestado um novo referencial à própria condição de mulher.

Assim é que hoje, com muita honra, a Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul dá posse a uma nova acadêmica que, já na condição de  sócia efetiva, vem prestando relevantes serviços à nossa entidade.

A partir de hoje passa a ocupar a cadeira de nº 34 Eloá Muniz.

Professora da Área de Comunicação Social da ULBRA.

Mestre em Ciências da Comunicação pela UNISINOS.

Especialista em marketing político e empresarial e autora de obras individuais, coletivas e de inúmeros artigos sobre comunicação, marketing e mídia, análise do discurso de telenovelas, cinema, publicidade e propaganda.  

Certamente não seria eu a pessoa mais indicada para apresentá-la a esta instituição, que tenho o privilégio de integrar. É que cabe à madrinha destacar os méritos profissionais, os atributos acadêmicos de sua afilhada, destacar sua produção científica e realçar a importância de seu trabalho. Mas prefiro referir o que tenho por mais significativo: a amizade que nos uniu.

O que mais cintila na pessoa da Eloá, o que encanta a todos, o que trouxe a todos os presentes nesta solenidade, em número tão significativo, é sua extrema afetividade - esse seu jeito dedicado e atencioso de ser, sua enorme capacidade de ouvir e de se doar, sem limites, de forma atenta e desprendida.

E é esta figura humana, sensível, que adentra hoje em nossa Academia.

Ela, que há tanto tempo me acompanha, que sonha todos os meus sonhos, vem, apesar de todas as dificuldades, com imensa dedicação fazendo o Jornal Mulher, um dos meus filhos mais diletos. É graças a ela que ele  continua a existir.

Assim, é com muita emoção que apresento a esta entidade, da qual tenho o honra de ser uma de suas integrantes, a Eloá, amiga fiel de todas as horas.

Sejas bem-vinda, Eloá. Tens luz própria. Com teu entusiasmo, com teu dinamismo, com teu otimismo, com tua gana e com tua garra, vais iluminar a todas nós.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria