Transmisssão da Diretoria da ABMCJ

Publicado em 10/03/2010

Discurso de Transmisssão da Diretoria da associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica/RS e outorga do Troféu Destaque, no dia 7 de maio de 1997. 
 
Hoje ocupo um espaço que já não é mais meu. A festa é para quem chega.

As homenagens são para estas mulheres que se fizeram pioneiras, pois chegaram a posições que se conquistam com luta e não se ocupam de graça, daí o significado do troféu, que nada mais é do que o reconhecimento de que vocês nos tornaram mais visíveis e nos fizeram mais respeitadas, resgatando, assim, nossa liberdade. Mas não posso deixar de falar.

Talvez este seja um dos momentos mais difíceis, creio que não da minha vida, mas da vida de qualquer pessoa nesta situação, em que se está frente a um misto de alegria e tristeza, sente um sabor de alívio, mas também o amargor da saudade. Tem-se a consciência pesada pelos erros, vergonha por aquilo que se pretendeu fazer e não se conseguiu, ao mesmo tempo em que se tem uma certa satisfação pela vitória de alguns sonhos realizados.

Entre as promessas cumpridas e as que não concretizei - exclusivamente por deficiências de ordem pessoal -, sobra esta sensação quase que de angústia. É difícil prestar contas de 3 anos de gestão à testa de uma entidade que, por 2 mandatos, esteve em mãos de nada menos do que Mercedes Rodrigues e que entrego hoje a uma amiga, quase uma irmã: Sônia do Canto. Essa mulher que tem uma forma ensolarada de ver a vida e que sempre se mostrou solidária. Nos momentos de maior dificuldade, inclusive de ordem pessoal e familiar, sempre foi a ela que apelei e de quem recebi uma palavra de entusiasmo, de estímulo e confiança.

Por uma questão de justiça, preciso confessar que, se hoje entrego a ABMCJ com uma sede, tão gentilmente cedida pela OAB, foi ela quem a conseguiu, graças a sua tenacidade e seu prestígio pessoal. Daí minha alegria de poder passar-lhe hoje a Presidência, uma sede totalmente equipada, com secretária, telefone e computador, que se transformou em um local de tal aconchego, que permitiu que outros sonhos fossem realizados.

Ao tomar posse, disse que aceitava o desafio de presidir uma entidade feminina, porque tinha por meta realizar um serviço de cunho social e de caráter assistencial, bem como buscar conscientizar a mulher da nova postura que deve assumir diante desta que Roberto Bobbio chamou de a maior revolução do milênio. A luta vitoriosa da mulher para se transformar em sujeito de direito, e não mais objeto da propriedade masculina, que leva ao que considero um crime contra a humanidade, o delito doméstico, quer por ser agressão contra uma mulher, quer por ser praticado no recinto de um lar, quer porque os maiores prejudicados são as crianças, que a tudo assistem e que restam com seqüelas que os acompanharão vida afora.

Por isso o JusMulher, daí o Jornal Mulher.

Essas, por certo, são, das coisas que fiz na vida, as que mais trabalho me deram, mas, também, foram minha maior fonte de realização.

No dia em que tiver de prestar contas a Deus do que nesta terra fiz em prol do meu próximo, tenham certeza, não direi que foi ser uma juíza, que sempre honrou a toga que vestiu, com o peso por ter sido usada por seu pai e seu avô. Direi, sem relutar, que foi o JusMulher, que há três anos, diariamente, atende a uma legião de mulheres, que jamais saem sem uma orientação, um conselho, mas, principalmente, sem uma manifestação de afeto. E esse é o traço mais significativo de nosso trabalho: não a informação jurídica, não o apoio psicológico, mas esse vínculo de solidariedade que une todos os que lá trabalham, porque se dispõem a abrir mão de um pedaço de vida para dar melhor qualidade de vida ao seu semelhante.

Também o Jornal Mulher, já na 27ª edição, que a cada mês me enche de gratificação. Manuseá-lo me dá um prazer epidérmico, não por ser o único veículo segmentado do país, não pela sua qualidade, mas basicamente por ser o resultado de um trabalho que só quem o faz consegue dimensionar o esforço que exige.

A criação da Federação das Associações Femininas, desafiando a todos os que nunca acreditaram que é possível nos juntarmos em uma só voz, é hoje uma realidade.

Esses sonhos, no entanto, não são só meus, e, apesar de não querer declinar nomes, pela certeza do pecado da omissão, por uma questão de lealdade não posso deixar de referir a Beti, a Terezinha, a Mary, a Manoela, a Ivone, a Eloá, que fizeram ideais se tornarem realidade.

Mas foi a aproximação com as mulheres do meu tempo que despertou minha atenção para as questões de gênero. O meu grande ganho foram vocês, que me deram coragem para, na minha posse, denunciar a discriminação de que fui vítima. Em nome de vocês, debrucei-me nas questões da discriminação e da violência e, tomando consciência da nossa triste realidade, ocupei todos os espaços da mídia, aceitei convites para palestras e conferências e tenho andado pelo Brasil e pelo mundo, cumprindo o que tenho agora quase como uma missão, empunhar bandeiras e mostrar que muito ainda temos a conquistar para chegar à tão almejada igualdade.

Por isso, agora, só consigo dizer obrigada.

Obrigada à minha diretoria, a quem disse que iriam se arrepender por me terem convidado a presidir a entidade.

A esse universo de amigas que hoje me fazem uma pessoa muito mais plena e realizada.

Enfim, a vocês que acreditaram e confiaram em mim, a todos vocês, muito, muito obrigada.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria