Jornal da AJURIS: Uma mulher realizada e feliz

Publicada em 10/03/2010.

Jornal da AJURIS pergunta:

    1. Conta um pouco da história que desencadeou o fato de seres a primeira Juíza no Rio Grande do Sul:
Sendo filha e neta de Desembargador, fácil é descobrir a origem da vocação para a magistratura. Ao depois, o fato de ninguém acreditar que conseguiria, me serviu de motivação para estudar para o concurso, durante um ano, mesmo sem que alguma mulher tivesse tido, sequer, a inscrição homologada.

    2. E agora, conta alguma "estória" da primeira magistrada.
a) Em relação ao Tribunal: Durante o estágio, depois de recomendar que os juízes deviam, nas audiências, usar gravata, o orientador, um pouco embaraçado com a minha presença e da Regina, disse que deveríamos usar sempre roupas de gola e mangas.
b) Em relação à Sociedade: Na primeira solenidade de que participei, como não fui chamada a compor a mesa, quando já tinham sido convidadas mais de dez autoridades locais, resolvi me retirar. Quando já estava na porta, fui alcançada pelo Prefeito, para saber do motivo do gesto. Ao explicar-lhe o protocolo, me disse que o desconhecia, e que eu iria ser chamada ao final, por ser a última autoridade a chegar na cidade.
Mandei-lhe a lei de presente.
c) E no interior? Quando cheguei à primeira comarca, tinha 22 anos. Minha mãe me acompanhou e todos achavam que ela era a juíza. Ao chegarmos em qualquer lugar, chamavam a ela de Dra. Juíza, e diziam que tinha uma filha muito engraçadinha.

    3. Ter sido a primeira apresentou que dificuldades e que facilidades na atividade jurisdicional?
Facilidades, creio que nenhuma, a não ser o oferecimento, logo que assumi, de que ficasse desempenhando atividades administrativas na Corregedoria, para não ir para o interior. Convite que, naturalmente recusei.
Dificuldades, algumas. Todo o caminho que se abre está repleto delas.

    4. Ainda existe alguma resistência à mulher na magistratura?
a) Na administração: Não posso dizer que não sofri discriminações, sendo que me surpreendeu o fato de que, mesmo após 17 anos na magistratura, ainda existir, por parte de alguns colegas, preconceito à minha promoção, mesmo por antigüidade, ao segundo grau. Felizmente, são posturas isoladas, que não me permitem afirmar que exista resistência à mulher.
b) Em relação à Jurisdição: Advogados, serventuários ou partes sempre manifestaram satisfação e orgulho em trabalhar comigo.

    5. E agora, a primeira Juíza de Alçada. Como é?
Fiquei sensibilizada com a forma calorosa e afetiva com que fui recebida na oportunidade da posse.

    6. Como te sentes ao voltar ao tribunal onde trabalhaste desde sua criação?
Emocionou-me o carinho e o orgulho dos servidores que foram meus colegas quando lá trabalhei, ao me verem voltar, agora como juíza, e principalmente o fato de os mesmos afirmarem que continuava sendo a mesma Berenice.

    7. Como tu vês a situação do Brasil atualmente?
As promessas não cumpridas, a corrupção generalizada, a consagração da impunidade, acrescida da ausência de mínimas garantias e condições de vida, enseja a total falta de credibilidade do povo. Este é o aspecto que considero mais grave no atual momento brasileiro.

    8. O Poder Judiciário pode colaborar para melhorar a situação? Como?
Fundamental é que a magistratura se conscientize de sua enorme responsabilidade de resgatar a confiança do povo, através de uma justiça ágil, séria e eficiente.

    9. Vês alguma identificação com a ex-Ministra Zélia que não foi a primeira Ministra, mas foi uma Ministra forte?
A pergunta está sugerindo que também sou uma mulher forte? Não sei se se trata de identificação, mas sempre admirei na Ministra sua independência, franqueza e retidão de conduta.

    
Cinco regras de ouro

    1º Estabelecer objetivos definidos e persegui-los com toda a garra.

    2º Dispor de uma certa disciplina de vida.

    3º Manter a independência.

    4º Ver sempre o lado positivo em qualquer circunstância.

    5º Nortear a vida na busca da paz.


Fonte: Maio/1991 - Jornal da AJURIS

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Maria