Jornal do Clube do Aposentado Panvel: Desembargadora Maria Berenice Dias: na luta pela paz

Publicada em 10/03/2010.

Contra a injustiça, ao lado da paz

Aos 57 anos, Maria Berenice Dias, desembargadora do Tribunal de Justiça do RS, festeja a recente indicação ao Prêmio Nobel da Paz, devido às lutas que sempre travou em favor das minorias. Na entrevista a seguir, essa mulher pioneira fala sobre preconceito, realização profissional e família.

 

A senhora foi a primeira juíza e a primeira desembargadora do Estado. Que preconceitos enfrentou para chegar aonde chegou?

Todo pioneirismo é difícil. Sempre há um certo grau de rejeição. Até então, as mulheres nem chegavam ao concurso, sendo eu a primeira a fazer a prova. Quando passei, não queriam que assumisse no interior. Fui orientada a usar roupas de gola e manga, abaixo do joelho, em plena moda da minissaia. Não entendiam como uma moça solteira poderia morar sozinha no interior. Na entrevista, perguntaram se eu era virgem. E eu era. (Risos). Acho até que me mantive assim porque queria muito ingressar na magistratura. Essa dificuldade de me inserir num gueto absolutamente masculino acompanhou toda a minha trajetória profissional. Sempre fui promovida por antigüidade, em todas as fases da carreira. Em 1996, depois de 20 anos como juíza, sem nenhum problema, trabalho atrasado ou qualquer motivo, vim para o Tribunal contando com 7 votos contrários dentre os 21, o que não pode ser explicado a não ser pelo preconceito.

 

A senhora é conhecida por lutar pelos direitos das minorias. Quais são as falhas da nossa Constituição nesse sentido?

É porque senti na carne o problema da discriminação que me tornei uma defensora dos excluídos. E acabei percebendo que essa postura contra a mulher se refletia até nos julgamentos. Foi quando passei a integrar aos movimentos feministas, tornando-me ativista e presidente de uma entidade que visa reverter essas coisas. A Constituição deveria marcar as diferenças. O tratamento igualitário deixou de mostrar que ainda vivemos numa sociedade hierarquizada, que as mulheres precisam de um olhar diferenciado para as suas questões. A violência doméstica é o maior câncer da nossa sociedade, e no entanto, a legislação é absolutamente desatenta a isso. E não havendo a lei, não há o direito. É uma realidade perversa.

 

Recentemente a senhora foi indicada para o Nobel da Paz. Por quais trabalhos a senhora recebeu a distinção? Qual foi a emoção de ter seu esforço reconhecido?

Não há significado maior na vida do que essa indicação. Principalmente porque é a distinção da mulher como agente da paz. Significa o reconhecimento de toda uma trajetória.

O prêmio já está ganho. A partir de agora o critério é político. Esse destaque dentre as mil pessoas repercute o esforço no sentido da mudança da imagem do juiz e da justiça, que devem ter mais visibilidade e estar mais voltados à realidade social, sem excluir os diferentes. A luta contra essa marginalização sempre foi uma das minhas maiores bandeiras.

 

A senhora é casada? Tem filhos? Que conselhos costuma dar a eles?

Estou no quinto casamento, há 6 anos, com um professor da USP. Ele mora em São Paulo e eu aqui, num modelo atual de união. Acho que todos meus relacionamentos anteriores deram certo, apenas não foram eternos. As pessoas têm que procurar a felicidade, pois a vida é uma só. Tenho três filhos: César, 27, veterinário; Suzana, 25, psicóloga e Denise, 24, que quer seguir a minha carreira, que também é a do pai e foi a do avô e bisavô. Todos moram comigo, sendo que os dois primeiros estão estudando fora no momento. O clima é de liberdade. Procuro passar para eles que a gente precisa ter um pouco de tolerância com a vida e as pessoas, deve acreditar nos sonhos e ter perseverança. E que o importante é que se viva de uma maneira ética, com responsabilidade social e de forma solidária.

 

O que a senhora gosta de fazer nas horas vagas? Como concilia tantas atividades? O que faz para evitar o estresse?

Caminho todas as manhãs na Redenção. Faz bem para o físico e a alma. Muitas decisões importantes são tomadas nesses momentos íntimos, de reflexão. Conciliar todas as atividades não é fácil, mas procuro otimizar meu tempo e tenho uma vida sistemática. E o estresse combato com um simples olhar ao pôr-do-sol, com a percepção das coisas pequenas e prazerosas da vida.

 

Do que mais a senhora se orgulha? O que ainda falta conquistar?

Aos 57 anos sou uma mulher realizada. Tive sonhos meio impossíveis, mas aceitei os desafios, sem nada conquistar com pouco esforço. Tenho uma profissão que me é muito gratificante. Algo que sempre quis fazer. Já tenho tempo para me aposentar, mas não me imagino fazendo outra coisa.

 

Batendo o martelo

Uma viagem... aos Lençóis Maranhenses

Uma música... O que será o amanhã, cantada por Clara Nunes

Um sonho... um mundo mais legal, uma justiça mais presente

Uma injustiça... a invisibilidade de alguns segmentos da sociedade

Uma causa... muitas causas, muitas bandeiras

Uma decisão... ingressar na magistratura

Uma vitória... ter me tornado uma voz que é ouvida

 

Fonte: Jornal do Clube do Aposentado  Panvel, Porto Alegre ? RS, n. 24, setembro/2005, p. 6-7.

Entrevistadora: Paula Tweedie

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

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