Zero Hora: Toma posse a primeira desembargadora gaúcha

Publicada em 10/03/2010.

Durante 122 anos o cargo foi ocupado por homens 

As 53 cadeiras do Tribunal de Justiça do Estado foram ocupadas por  homens durante 122 anos, desde que a instituição surgiu. Esse longo capítulo escrito exclusivamente por mãos masculinas teve um ponto final ontem, precisamente às 14h35min, quando a santiaguense Maria Berenice Dias tomou posse como desembargadora. A solenidade fez jus ao acontecimento: a sala de sessões do Tribunal Pleno ficou lotada para celebrar a posse.

Os convidados que ficaram sem cadeira não se incomodaram com a longa solenidade, nem com o calor que os ventiladores não conseguiram abrandar em uma tarde de sol forte. Os aplausos para a nova desembargadora foram abundantes. Um trecho de seu discurso despertou palmas ainda mais intensas: quando ela lamentou ter sido promovida pelo critério de antigüidade e, ainda assim, sem unanimidade de votos ? o que contrariou uma tradição do TJE. ?Só entendo a resistência como discriminatória à minha condição feminina e ao fato de ser independente e ter posições assumidas?, salientou. Pela primeira vez durante a cerimônia, os demais desembargadores não acompanharam as palmas. Mantiveram-se solenes, dentro de suas togas.

A solenidade se caracterizou como um marco feminista. Antes de começar o discurso, a desembargadora fez questão de mencionar que a mesa da cerimônia era integrada por Emília Fernandes, a primeira senadora gaúcha (eleita pelo PTB), e Wrana Panizzi, a primeira reitora da história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). ?A Maria Berenice é uma desbravadora?, observou a vereadora porto-alegrense Anamaria Negroni (PSDB), pouco depois de posar para uma foto ao lado da desembargadora, antes do início da solenidade. ?Ela já havia sido a primeira juíza de Alçada do Rio Grande do Sul?. Advogada, Negroni conheceu Maria Berenice há dois anos, na Associação das Mulheres de Carreira Jurídica, que a novata desembargadora preside.

O jurista Paulo Brossard de Souza Pinto, ex-ministro da Justiça e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, não se surpreendeu com o ingresso de uma mulher no TJE. ?Agora há um bom número de magistradas?, lembrou Brossard. 


Fonte: 29 de outubro de 1996 ? Zero Hora ? pág. 57 ? Porto Alegre - RS.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria