Jornal Zero Hora: Berenice é da paz!

Publicada em 10/03/2010.

Aos 24 anos, Maria Berenice Dias tomou posse como a primeira juíza do Estado.

Em 1996, foi empossada como desembargadora. A primeira mulher a romper com uma tradição de 122 anos do Tribunal de Justiça do Estado. 
É autora de nove livros, entre eles União homossexual - O preconceito e a justiça e Manual do Direito das Famílias. 

Em 2001, a Câmara que preside concedeu direitos da união estável a parceiros homossexuais, decisão até então inédita no país. 

Escreveu o artigo E agora, Chicão?, com repercussão nacional, publicado mais de 50 vezes, em que defendia que a guarda do filho da cantora Cássia Eller deveria ficar com a sua companheira, Eugênia, e não com o avô da criança.

 

Ela luta desde o início da carreira pela inclusão social das minorias

Uma gaúcha boa de briga está na disputa pelo Prêmio Nobel da Paz. Nossa representante é natural de Santiago, tem 57 anos e há 10 ocupa um dos cargos mais importantes do Poder Judiciário gaúcho.

- Sou boa de briga em busca da paz - diz a candidata, respondendo rápido à provocação.

Maria Berenice Dias é desembargadora, a primeira que tomou posse no Estado, e integra a lista de mil mulheres que disputam o reconhecimento internacional. Ao todo, são 52 brasileiras. A proposta, sugerida por uma ONG, é de chamar a atenção para a importância das mulheres e o pouco reconhecimento que recebem (em 104 edições do Nobel, apenas 13 mulheres venceram). As mil mulheres concorrem juntas, como um único candidato.

- Até isso tem a ver com a minha trajetória, o fato de ser uma candidatura coletiva. É por isso que tenho lutado nesses anos todos, pela inclusão - festeja.

Maria Berenice luta desde o início da carreira pela inclusão de minorias e pela sua própria na atividade profissional que escolheu. É militante das bandeiras feministas e precursora no país na defesa do reconhecimento das uniões homoafetivas - termo criado por ela. Em causa própria, desbravou seu caminho até conquistar a toga. Foi a primeira juíza do Estado, em um tempo em que o Judiciário sequer aceitava inscrição de mulheres. Quase 30 anos de carreira depois, Maria Berenice foi novamente pioneira, quando tomou posse como desembargadora. O reconhecimento, que deveria coroar uma profissional dedicada, teve seu lado polêmico. Sua indicação foi por antigüidade e não por merecimento, o que tradicionalmente garantiria uma eleição por unanimidade.

- Obtive sete votos contrários. Na época, mesmo vivendo um momento especial, não me calei, denunciei. Foi por preconceito, por ser mulher e por ser mulher divorciada - explica num tom de quem já superou, mas não esqueceu, o assunto.

Mãe de três filho, ela está no quinto relacionamento. Vive uma união estável com o professor de direito constitucional Sérgio Resende de Barros, que mora em São Paulo. A identificação com as causas da homossexualidade já rendeu situações saia justa. Freqüentemente, até mesmo em público, tem sua sexualidade questionada. A resposta é irônica mas significativa:

- Sou lésbica, aidética, negra... Sou todas as minhas bandeiras.

A indicação ao Nobel da Paz não é o único reconhecimento à gaúcha. Ela também é embaixatriz (somente duas pessoas ocupam o cargo no país) da primeira edição do World Outgames, os chamados Jogos Olímpicos Gays, que serão realizados, no ano que vem, em Montreal, no Canadá.

Mas Maria Berenice, que nem de longe se enquadra na postura pomposa de seus colegas de tribunal, não descansa nos louros dessas homenagens. Já agenda sua próxima briga:

- Quero começar a discutir o incesto neste país. Uma questão delicada para todos e para a Justiça e que, ao contrário do que muitos pensam, não é exclusividade das classes menos favorecidas.

 

Fonte: Jornal Zero Hora, Porto Alegre - RS, Caderno DonnaZH, 10 de julho de 2005.
Reportagem: Fernanda Zaffari

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria