Estereótipo vexatório em programas humorísticos é homofobia, diz Maria Berenice

Publicada em 07/10/2011.

Inserido no Google, o nome da advogada gaúcha especializada em direito homoafetivo, Maria Berenice Dias, lidera a presença em matérias sobre a discussão homossexual. Na TV, no rádio e nos jornais e revistas, a situação não muda. Nos últimos meses, Berenice foi uma das principais fontes da imprensa para o tema, principalmente após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter reconhecido a união homoafetiva.

Seu currículo justifica: ela foi a primeira desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Família (IBDFAM), preside a Comissão Especial da Diversidade Sexual da OAB, é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio Grande do Sul e fundou diversos projetos relacionadas à questão da diversidade sexual.

 Entre tantas atividades e uma agenda apertada, Berenice conversou com o Portal IMPRENSA sobre a cobertura da mídia brasileira em relação à questão homossexual e os eventuais equívocos da cobertura. Para ela, está mais do que clara a importância de falar com jornalistas. "Eu sempre dou um jeito de não dispensar nenhuma entrevista; a imprensa é fundamental para o debate".

IMPRENSA - A quais fatores você atribui o aumento que a temática homossexual ganhou no noticiário?

Maria Berenice Dias - Dentre vários fatores, acredito que o mais significativo tenha sido a mudança da própria sociedade. O distanciamento entre Estado e Igreja contribuiu muito para isso. Quando começou a ser construída de fato essa divisão, um novo conceito de família passou a ser concebido. Obviamente que isso consiste em um processo e não uma ruptura. Mais recentemente, a decisão do STF de reconhecer a União Homoafetiva também ajudou.

IMPRENSA - Algum outro?

Berenice - Também tem o movimento homossexual que se organizou. Outra questão é que a homossexualidade virou um produto que vende e, por isso, entrou na mídia. Na novela, por exemplo, essa visibilidade não é só uma sensibilidade ou uma conscientização, mas um produto que vende e que está na moda.

 
IMPRENSA - Isso não é negativo?

Berenice - Não interessa a causa, o importante é que o tema seja debatido, mesmo sendo um produto. A novela vai vender mais se tiver um punhado de gays lá dentro? Não tem problema, desde que isso transforme a sociedade e contribuía para a discussão.

 
IMPRENSA - Ainda existem equívocos e estereótipos na abordagem da mídia sobre o assunto?

Berenice - Em muitos programas de humor temos um problema sério: o uso de estereótipos negativos e ridicularizados. Isso também é uma forma de homofobia: tratar de estereótipo vexatório em programa humorístico é homofobia, pois não correspondente ao perfil da população LGBT. Muitos desses programas atribuem ao homossexual um fenótipo afeminado e de gestos exagerados; isso é preconceito, portanto, homofobia.

 
IMPRENSA - Quais temas relacionados ao assunto você sente falta de ser abordado pela imprensa?

Berenice - Eu tenho visto pouco comprometimento dos meios de comunicação com a normatização. Houve uma grande divulgação do julgamento do STF, mas depois disso as conseqüências estão passando despercebidas e sem a atenção que merecem. Muitos direitos começaram a ser reconhecidos e nada foi divulgado. Outra coisa é mostrar o que outros países possuem em termos de leis relacionadas à homossexualidade. Ainda falta espaço para isso.

 
IMPRENSA - Pelo fato de o meio jornalístico ser mais liberal contribui para a discussão? Ou isso é lenda?

Berenice - Eu acredito que o jornalismo em geral assumiu um compromisso importante, pois deixou de ser só um meio de comunicação baseado em fatos, para ser também um meio de formação. Antes, os veículos só divulgavam fatos em relação à causa gay; hoje, eles parecem assumir uma responsabilidade maior, como instruir a sociedade sobre o tema.

 
IMPRENSA - Como foi construída essa relação que você tem com a imprensa?

Berenice - Muito dos avanços que consegui ao longo da minha vida em relação ao tema devo aos meios de comunicação. Acredito que não adianta criticar ou julgar sem se aproximar. Eu fui a primeira juíza do Brasil a ter um site pessoal, criei faz 15 anos. Acredito que as causas devem ser publicadas. Meu sonho ainda é ter um programa de rádio e em breve espero ter.

 
IMPRENSA - Não incomoda ver que os veículos dão um grande espaço para uma notícia sobre uma agressão a um casal gay na Paulista, mas deixam de falar dos gays de periferia, que diariamente sofrem tais violências? A temática homossexual também não sofre com a diferença de classes?

Berenice - Acho que vira notícia quando acontece na avenida Paulista, justamente porque é emblemático. O que acontece nas periferias de certa forma já tornou-se comum. Claro, além dos elementos, como o fato de ser o centro da cidade, uma metrópole... Mas se cada vez que acontecer na avenida Paulista e sair no "Jornal Nacional", eu acho ótimo. 

 
Fonte: http://portalimprensa.uol.com.br/noticias/brasil/44948/estereotipo+vexatorio+em+programas+humoristicos+e+homofobia+diz+maria+berenice/

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